A MÃO
QUE BALANÇA A MINHA AVALIAÇÃO
O
texto de agora trata de minhas reflexões acerca do sistema de avaliação que a Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES - faz sobre os
programas de pós-graduação e dos periódicos científicos da área de Ciências
Sociais Aplicadas. Há que se esclarecer que a opinião aqui estabelecida é minha
e unicamente minha. Ela não é neutra, pois sou professora de um programa de pós
(por enquanto) e editora de periódico científico. Para mim isso não é um
problema, porque acredito que a neutralidade não é possível em um caso desses.
Fala-se sempre a partir de certa história, de certa posição política, de certa
visão de mundo.
Também
àqueles que não têm muito contato com isso, é necessário dizer que todos os
programas de pós-graduação stricto sensu,
isto é, cursos de mestrado e doutorado, são avaliados pela CAPES a cada quatro
anos. Tal órgão possui entre suas atribuições tal tipo de atividade e, ao quem parece,
a mais importante.
Outro
esclarecimento que se faz necessário é dizer que o sistema de avaliação da
CAPES inclui diversos e multifacetados critérios. Dentre eles, a publicação dos
professores (vou enfatizar sempre a palavra professor em detrimento da palavra
pesquisador) representa 50% da avaliação dos programas. Assim, os professores
precisam publicar em periódicos bem avaliados pela CAPES (e disponibilizam uma
listagem informando o quanto vale cada periódico). O que acontece é que tal
sistema tem sido uma tortura mesmo para os mais abnegados. Isso porque as
exigências, em termos de pontuação necessária, se modificam no decorrer ou
mesmo no final do período de avaliação. Além disso, a avaliação dos periódicos
também. Então, se eu escolhi um periódico que a CAPES afirma que se eu publicar
lá terei dada pontuação, eu vou lá e
consigo publicar, deveria conseguir os pontos, certo? A verdade é que não
saberei se isso vai valer ou não. Somente no final, depois do fechamento do
período é que a avaliação do periódico será decidida (porque eles podem mudar
de ideia a qualquer momento) e eu saberei quantos pontos deveria ter feito
(porque as exigências em termos de quantidade de pontos também é modificada no
final do período). A justificativa para a mudança é que os professores tem
publicado muito e isso não permite à CAPES a diferenciação dos programas.
Assim, a lógica é: já que todos cumpriram aquilo que estava inicialmente
acordado, então é preciso mudar. A
lógica é que temos que ter “campeões” e não sermos todos bons – isso não
importa e não é desejado, aliás é muito evitado.
Eu
acho que a mudança de pontuação exigida aos professores e nova avaliação dos
periódicos após três anos de iniciado o período de avaliação dos
programas sejam ações descabidas. Em nenhuma parte do mundo, isso
seria entendido. A CAPES tem visado unicamente classificar os
programas e não necessariamente melhorá-los, embora a diretoria de
avaliação pareça acreditar que isso seja suficiente para desencadear
tal melhoria. Por enquanto, o que desencadeou foi indignação e frustração
da comunidade acadêmica.
Classificar os programas em medidas de publicação (isso conta 50% da avaliação) não salvará a pós-graduação no Brasil. Aliás, ela precisa ser salva de quê mesmo? Sermos iguais aos gringos não nos fará melhores, talvez mais neuróticos. Temos uma história diferente e condições concretas de atuação também bem distintas. Mesmo entre nós, somos diferentes. Mas a diferença tem sido sempre um problema: não dá para controlar, para uniformizar, para fazer todos pensarem do mesmo jeito.
Classificar os programas em medidas de publicação (isso conta 50% da avaliação) não salvará a pós-graduação no Brasil. Aliás, ela precisa ser salva de quê mesmo? Sermos iguais aos gringos não nos fará melhores, talvez mais neuróticos. Temos uma história diferente e condições concretas de atuação também bem distintas. Mesmo entre nós, somos diferentes. Mas a diferença tem sido sempre um problema: não dá para controlar, para uniformizar, para fazer todos pensarem do mesmo jeito.
Especificamente
na área de Ciências Sociais Aplicadas temos o problema de termos que,
inclusive, justificar nossa existência porque o pessoal das ciências ditas como
hard (porque elas são muito difíceis
e as pessoas muito inteligentes que lidam com elas, muitíssimo inteligentes)
que, aliás, ocupam grande parte da área na CAPES, não consideram uma ciência de
verdade. De fato, não somos iguais às ciências exatas, pois temos
nossas especificidades. Para cada teoria ou modelo existente para
tentar entender os fenômenos sociais nas organizações (e isso porque
nem sempre queremos prever os fenômenos, criando fórmulas) existe
outro concorrente e tão válido quanto. Isso faz com que certas
pesquisas tenham um tempo de maturação diferente, entre outras diferenças.
Ademais não é necessário justificar que as ciências que tratam da vida e
funcionamento das organizações na sociedade moderna tem seu lugar de ser sim e
merecem ser estudadas.
Depois,
dentro de nossa própria área, temos diferentes modos de pesquisar. Alguns são
ótimos em utilizar estratégias de levantamento e conseguem obter dados de
pesquisa por meio eletrônicos ou a partir de bases de dados (e
elas custam caro). As análises nestes casos podem ser feitas mais rapidamente.
Por outro lado, há também as pesquisas que possuem um tempo maior de coleta e
análise. Tenho conhecimento de colegas que passam meses coletando dados em
pesquisas participativas e cujo resultado não conseguem
"fatiar". Os dois tipos são importantes, mas possuem
processos diferentes. Entretanto, isso não deve ser levado em consideração
porque o quê importa realmente é se eu consigo ou não publicar os resultados de
minhas pesquisas em journals internacionais.
Entendo
também que a CAPES queira ignorar que,
mesmo dentro dos programas, existem professores que fazem coisas
diferentes. Existem aqueles que atuam na formação dos estudantes, e
outros, com foco na pesquisa. Isso é comum. Ignorar isso é prejudicar a todos.
Aqueles que estão publicando como loucos vão dizer: isso é desculpa de quem não
publica porque eu faço, eu
posso. Está certo,
parabéns, mas ninguém consegue fazer um programa sozinho.
É necessário um grupo para poder ser um programa de pós e o
grupo não é homogêneo, não utiliza as mesmas técnicas, não procura os mesmos
resultados.
Temos
também uma grande diferença no sistema educacional brasileiro em relação aos
gringos a quem CAPES atribui grande importância. Por que então não os copiamos
de verdade? A começar pela função de pesquisador. Não temos na área de
ciências sociais aplicados no Brasil a carreira de pesquisador.
Salvo raríssimas exceções, somos docentes. Mesmo que algumas
universidades tenham essa função prevista, o que de fato acontece é
que a carreira é mesmo de docente e ele deve fazer pesquisa. Penso
que uma reflexão a esse respeito deva ser feita mais seriamente.
O
segundo ponto e relacionado ao primeiro é que o que fazemos
na pós-graduação não é somente a formação de pesquisadores, mas,
sobretudo a formação de professores para o ensino superior.
Pessoalmente
acredito ser essa mais uma das incoerências das politicas públicas brasileiras.
Se olharmos para o passado recente, veremos que o a iniciativa privada representou
papel importante na abertura de vagas em cursos superiores no Brasil
(decorrente da política pública concretizada na LDB de 1996). Diga-se, de
passagem, que o curso de Administração está entre os maiores ofertantes de
vagas. Ora, tais cursos precisam de professores, logo, mais cursos de
pós-graduação stricto sensu são
também necessários para formação de professores que atenderão à demanda gerada
pelo crescimento da oferta de cursos. Até aí, tudo ok. Parece coerente. No
entanto, a CAPES, que parece não ter nenhuma relação com as políticas
públicas de ensino superior, diz que somente a pesquisa salva e
impõe uma série de medidas "exatas" para saber mesmo quem está fazendo
a coisa certa. Bem imagino que seja a publicação em journals (sim porque eles são muito
melhores, né?). E assim, a formação de professores fica em segundo
plano. Nós deveríamos, como comunidade acadêmica, avaliar a CAPES. O
que acham? O primeiro critério, em minha opinião, deveria ser a
coerência entre os objetivos da CAPES e os critérios que eles adotam
para avaliar os programas.
O fato é que não somos todos iguais no Brasil, temos diversos brasis. Não podemos afirmar que aquele que está em uma grande fundação ou universidade no sul ou sudeste do Brasil tenha iguais condições de trabalho de quem está em uma universidade federal no interior do nordeste. Não quero dizer com isso que as universidades públicas ou de certas regiões não tenham que fazer nada. O que acontece é que elas fazem e muito. Vejam as pesquisas e os projetos que ajudam a pequena empresa
Um
pouco de reconhecimento para a universidade
pública também não faria mal a ninguém. Ora, as universidades privadas
foram obrigadas a criar cursos de pós-graduação porque sem eles não
ganhariam o status de
universidade. Então, poucas tinham cursos como forma de contribuição para o
Brasil. Se compararmos a quantidade
de programas em públicas e privadas pode-se ter uma noção disso. Nós aqui
da periferia não somos perfeitos e não queremos invadir sua praia.
Queremos fazer o nosso trabalho bem feito e, se possível, sermos reconhecidos por isso. Mas acho que é
pedir demais, não é?
Penso
que a CAPES, como organismo controlador, é um tanto ingênua. Será
mesmo que existe um sistema perfeito de avaliação? Eles também lançam regras
para coibir as “pedaladas acadêmicas”. Mas quem faz avaliações destas
pedaladas? Eles agora dizem que professores que publicam com colegas estão
fazendo um tipo de ação antiética que é inflar os pontos colocando o nome de
colegas no artigo. Acho que existe isso sim. Já vi acontecer. Mas a maior parte
é mesmo resultados de grupos de pesquisa (incentivado pela CAPES by the way); E quando
uma instituição de ensino paga aos seus professores valores
bem significativos para publicarem seus artigos em journals, não seria uma forma de burlar ou manipular o
sistema?
O que
está acontecendo é que o sistema criado pela CAPES está, em última
análise, separando os "ricos" dos pobres. Somente os ricos
podem ser bons porque possuem recursos para isso. Recursos para
pagar aos professores que publicam em certos journals, recursos para tradução, para manutenção de assistentes,
para compra de diversos bancos de dados. Mas não se engane, os ricos
também tem se aproveitando dos recursos públicos na forma de bolsas e
financiamentos de pesquisa.
Sim,
são muitas diferenças e o problema é complexo. A complexidade não
pode, no entanto, fazer com que desistamos de encontrar uma solução
que contemple tais diferenças e partamos então para a solução mais simples que é colocar indicador para alguns itens
jogando a complexidade para baixo do tapete. Vou aqui usar a frase
de um
professor muito querido: Somos nós administradores que resolvemos os problemas complexos, os simples, deixamos para o estagiário.
professor muito querido: Somos nós administradores que resolvemos os problemas complexos, os simples, deixamos para o estagiário.
Enfim,
para não ficar somente na reclamação. Acho que as regras devam ser estáveis, claras e conhecidas antes de iniciar o
período de
avaliação. Os critérios deveriam ter equilíbrio entre a formação de professores e pesquisa e reconhecer que trabalhos feitos junto à comunidade como algo tão valioso quanto publicar nos maravilhosas revistas americanas.
avaliação. Os critérios deveriam ter equilíbrio entre a formação de professores e pesquisa e reconhecer que trabalhos feitos junto à comunidade como algo tão valioso quanto publicar nos maravilhosas revistas americanas.
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