sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A MÃO QUE BALANÇA A MINHA AVALIAÇÃO

O texto de agora trata de minhas reflexões acerca do sistema de avaliação que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES - faz sobre os programas de pós-graduação e dos periódicos científicos da área de Ciências Sociais Aplicadas. Há que se esclarecer que a opinião aqui estabelecida é minha e unicamente minha. Ela não é neutra, pois sou professora de um programa de pós (por enquanto) e editora de periódico científico. Para mim isso não é um problema, porque acredito que a neutralidade não é possível em um caso desses. Fala-se sempre a partir de certa história, de certa posição política, de certa visão de mundo.

Também àqueles que não têm muito contato com isso, é necessário dizer que todos os programas de pós-graduação stricto sensu, isto é, cursos de mestrado e doutorado, são avaliados pela CAPES a cada quatro anos. Tal órgão possui entre suas atribuições tal tipo de atividade e, ao quem parece, a mais importante.

Outro esclarecimento que se faz necessário é dizer que o sistema de avaliação da CAPES inclui diversos e multifacetados critérios. Dentre eles, a publicação dos professores (vou enfatizar sempre a palavra professor em detrimento da palavra pesquisador) representa 50% da avaliação dos programas. Assim, os professores precisam publicar em periódicos bem avaliados pela CAPES (e disponibilizam uma listagem informando o quanto vale cada periódico). O que acontece é que tal sistema tem sido uma tortura mesmo para os mais abnegados. Isso porque as exigências, em termos de pontuação necessária, se modificam no decorrer ou mesmo no final do período de avaliação. Além disso, a avaliação dos periódicos também. Então, se eu escolhi um periódico que a CAPES afirma que se eu publicar lá terei dada pontuação, eu vou  lá e consigo publicar, deveria conseguir os pontos, certo? A verdade é que não saberei se isso vai valer ou não. Somente no final, depois do fechamento do período é que a avaliação do periódico será decidida (porque eles podem mudar de ideia a qualquer momento) e eu saberei quantos pontos deveria ter feito (porque as exigências em termos de quantidade de pontos também é modificada no final do período). A justificativa para a mudança é que os professores tem publicado muito e isso não permite à CAPES a diferenciação dos programas. Assim, a lógica é: já que todos cumpriram aquilo que estava inicialmente acordado, então é preciso mudar.  A lógica é que temos que ter “campeões” e não sermos todos bons – isso não importa e não é desejado, aliás é muito evitado.

Eu acho que a mudança de pontuação exigida aos professores e nova avaliação dos periódicos após três anos de iniciado o período de  avaliação dos programas sejam ações descabidas. Em nenhuma parte do  mundo, isso seria entendido. A CAPES tem visado  unicamente classificar os programas e não necessariamente melhorá-los, embora a diretoria de avaliação pareça acreditar que  isso seja suficiente para desencadear tal melhoria. Por enquanto, o que desencadeou foi indignação e frustração da comunidade acadêmica.

Classificar os programas em medidas de publicação (isso conta 50% da  avaliação) não salvará a pós-graduação no Brasil. Aliás, ela precisa ser  salva de quê mesmo? Sermos iguais aos gringos não nos fará melhores,  talvez mais neuróticos. Temos uma história diferente e condições  concretas de atuação também bem distintas.  Mesmo entre nós, somos diferentes. Mas a diferença tem sido sempre um problema: não dá para controlar, para uniformizar, para fazer todos pensarem do mesmo jeito.

Especificamente na área de Ciências Sociais Aplicadas temos o problema de termos que, inclusive, justificar nossa existência porque o pessoal das ciências ditas como hard (porque elas são muito difíceis e as pessoas muito inteligentes que lidam com elas, muitíssimo inteligentes) que, aliás, ocupam grande parte da área na CAPES, não consideram uma ciência de verdade. De fato, não somos iguais às  ciências exatas, pois temos nossas  especificidades. Para cada teoria ou modelo existente para tentar  entender os fenômenos sociais nas organizações (e isso porque nem  sempre queremos prever os fenômenos, criando fórmulas) existe outro concorrente e tão válido quanto. Isso faz com que certas pesquisas  tenham um tempo de maturação diferente, entre outras diferenças. Ademais não é necessário justificar que as ciências que tratam da vida e funcionamento das organizações na sociedade moderna tem seu lugar de ser sim e merecem ser estudadas.

Depois, dentro de nossa própria área, temos diferentes modos de pesquisar. Alguns são ótimos em utilizar estratégias de levantamento e conseguem obter dados de pesquisa por meio eletrônicos ou a partir de bases de  dados (e elas custam caro). As análises nestes casos podem ser feitas mais rapidamente. Por outro lado, há também as pesquisas que possuem um tempo maior de coleta e análise. Tenho conhecimento de colegas que passam meses coletando dados em pesquisas participativas e cujo resultado não conseguem "fatiar". Os  dois tipos são importantes, mas possuem processos diferentes. Entretanto, isso não deve ser levado em consideração porque o quê importa realmente é se eu consigo ou não publicar os resultados de minhas pesquisas em journals internacionais. 

Entendo também que a CAPES queira ignorar  que, mesmo dentro dos programas, existem professores que fazem coisas diferentes. Existem aqueles que atuam na formação dos estudantes, e outros, com foco na pesquisa. Isso é comum. Ignorar isso é prejudicar a todos. Aqueles que estão publicando como loucos vão dizer: isso é desculpa de quem não publica porque eu faço, eu posso.  Está certo, parabéns, mas ninguém consegue fazer um programa sozinho. É  necessário um grupo para  poder ser um programa de pós e o grupo não é homogêneo, não utiliza as mesmas técnicas, não procura os mesmos resultados.

Temos também uma grande diferença no sistema educacional brasileiro em relação aos gringos a quem CAPES atribui grande importância. Por que então não os copiamos de verdade? A começar pela função de pesquisador. Não temos na área de ciências  sociais aplicados no Brasil a carreira de pesquisador. Salvo  raríssimas exceções, somos docentes. Mesmo que algumas universidades  tenham essa função prevista, o que de fato acontece é que a carreira  é mesmo de docente e ele deve fazer pesquisa. Penso que uma reflexão  a esse respeito deva ser feita mais seriamente.
O segundo ponto e relacionado ao primeiro é que o que fazemos na  pós-graduação não é somente a formação de pesquisadores, mas, sobretudo a formação de professores para o ensino superior.

Pessoalmente acredito ser essa mais uma das incoerências das politicas públicas brasileiras. Se olharmos para o passado recente, veremos que o a iniciativa privada representou papel importante na abertura de vagas em cursos superiores no Brasil (decorrente da política pública concretizada na LDB de 1996). Diga-se, de passagem, que o curso de Administração está entre os maiores ofertantes de vagas. Ora, tais cursos precisam de professores, logo, mais cursos de pós-graduação stricto sensu são também necessários para formação de professores que atenderão à demanda gerada pelo crescimento da oferta de cursos. Até aí, tudo ok. Parece coerente. No entanto, a CAPES, que parece não ter nenhuma relação com as políticas públicas de ensino superior, diz  que somente a pesquisa salva e impõe uma série de medidas "exatas" para saber mesmo quem está fazendo a coisa certa. Bem imagino que  seja a publicação em journals (sim porque eles são muito melhores,  né?). E assim, a formação de professores fica em segundo plano.  Nós deveríamos, como comunidade acadêmica, avaliar a CAPES. O que acham? O primeiro critério, em minha opinião, deveria ser a coerência  entre os objetivos da CAPES e os critérios que eles adotam para  avaliar os programas.

O fato é que não somos todos iguais no Brasil, temos diversos brasis. Não podemos afirmar que aquele que está em uma grande fundação ou universidade no  sul ou sudeste do Brasil tenha iguais condições de trabalho de quem  está em uma universidade federal no interior do nordeste. Não quero dizer com isso que as universidades públicas ou de certas regiões não tenham que fazer nada. O que acontece é que elas fazem e muito. Vejam as pesquisas e os projetos que ajudam a pequena empresa 

Um pouco de   reconhecimento para a universidade pública também não faria mal a ninguém. Ora, as universidades privadas foram obrigadas a  criar cursos de pós-graduação porque sem eles não ganhariam o status  de universidade. Então, poucas tinham cursos como forma de contribuição para o Brasil. Se compararmos a   quantidade de programas em públicas e privadas pode-se ter uma noção disso. Nós aqui da periferia não somos perfeitos e não queremos  invadir sua praia. Queremos fazer o nosso trabalho bem feito e, se   possível, sermos reconhecidos por isso. Mas acho que é pedir demais,   não é?

Penso que a CAPES, como organismo controlador, é um tanto ingênua.  Será mesmo que existe um sistema perfeito de avaliação? Eles também lançam regras para coibir as “pedaladas acadêmicas”. Mas quem faz avaliações destas pedaladas? Eles agora dizem que professores que publicam com colegas estão fazendo um tipo de ação antiética que é inflar os pontos colocando o nome de colegas no artigo. Acho que existe isso sim. Já vi acontecer. Mas a maior parte é mesmo resultados de grupos de pesquisa (incentivado pela CAPES by the way); E quando uma instituição de ensino paga aos seus professores valores bem significativos para publicarem seus artigos em journals, não seria uma forma de burlar ou manipular o sistema?

O que está acontecendo é que o sistema criado pela CAPES está, em última análise, separando os "ricos" dos pobres. Somente os  ricos podem ser bons porque possuem recursos para isso.  Recursos para pagar aos professores que publicam em certos journals, recursos para tradução, para manutenção de assistentes, para compra de diversos bancos de dados. Mas não se engane, os ricos também tem se aproveitando dos recursos públicos na forma de bolsas e financiamentos de pesquisa.

Sim, são muitas diferenças e o problema é complexo. A complexidade  não pode, no entanto, fazer com que desistamos de encontrar uma  solução que contemple tais diferenças e partamos então para a solução   mais simples que é colocar indicador para alguns itens jogando  a complexidade para baixo do tapete. Vou aqui usar a frase de um  
professor muito querido: Somos nós administradores que resolvemos os problemas complexos, os simples, deixamos para o estagiário.

Enfim, para não ficar somente na reclamação. Acho que as regras devam   ser estáveis, claras e conhecidas antes de iniciar o período de  
avaliação.   Os critérios deveriam ter equilíbrio entre a formação de  professores e pesquisa e reconhecer que trabalhos feitos junto à comunidade como algo tão valioso quanto publicar nos maravilhosas revistas americanas.


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